27/08/2025
Por Isabella Della Giacoma
Bettes*
Vivemos um tempo em que as
tragédias não precisam mais acontecer perto para nos afetar profundamente. Os
conflitos armados, antes restritos às manchetes dos jornais, agora se infiltram
no cotidiano digital, entre um stories e outro, em vídeos que surgem sem aviso
no feed, nos grupos de WhatsApp ou nas plataformas de entretenimento. A dor do
outro, cada vez mais exposta e amplificada pelas redes, se torna também nossa,
ainda que à distância. E o que antes era visto como sensibilidade extrema hoje
é reconhecido pela psicologia como um fenômeno real, o chamado trauma vicário.
Desde 2020, a pandemia da
COVID-19 inaugurou um ciclo prolongado de exposição à morte em tempo real,
transformando o luto coletivo em uma experiência global reconhecida pela OMS.
Em 2022, a Guerra da Ucrânia marcou uma nova etapa dessa dinâmica, com cenas de
bombardeios viralizando no TikTok e X. Mais recentemente, a guerra
Israel-Palestina e os conflitos no Sudão contribuíram para ampliar ainda mais
essa onda de sofrimento digitalizado, que afeta emocionalmente milhões de
pessoas ao redor do mundo, inclusive no Brasil.
A exposição constante a cenas de
violência, sofrimento e morte, mesmo quando não vividas diretamente, pode
desencadear reações emocionais comparáveis às de quem esteve no centro da
tragédia. Ansiedade persistente, insônia, exaustão, sensação de impotência e
até sintomas de transtorno de estresse pós-traumático vêm sendo observados com
frequência crescente entre pessoas que acompanham, de forma recorrente, os
horrores das guerras, dos desastres naturais e dos crimes brutais exibidos em
looping nas telas.
Esse não é um processo exclusivo
de quem tem relação com o fato noticiado. O que se observa é uma forma de
empatia intensificada e desprotegida, que ativa no cérebro os mesmos circuitos
de dor e compaixão de quem sofre presencialmente. O consumo emocional de
tragédias se transforma, muitas vezes, em fadiga por compaixão: uma exaustão
silenciosa provocada pelo excesso de contato com o sofrimento alheio. A
American Psychological Association já reconhece a condição, e estudos
internacionais demonstram que indivíduos expostos repetidamente a conteúdos
traumáticos pela mídia apresentam níveis de estresse semelhantes aos
vivenciados por testemunhas diretas.
A morte da brasileira Juliana
Marins, em junho de 2025, durante uma trilha na Indonésia, expôs com clareza
esse tipo de sofrimento coletivo digital. Milhares de pessoas passaram dias
acompanhando a busca pelo seu paradeiro, se envolvendo emocionalmente com a
história, vibrando por atualizações e, por fim, lamentando um desfecho trágico.
Pessoas que nunca a conheceram passaram a vivenciar um luto real, ainda que
virtual, em um fenômeno conhecido como “luto digital”. A conexão criada entre a
vítima e o público, mediada por redes sociais e narrativas emocionais,
transformou a dor individual em uma experiência compartilhada.
Ao mesmo tempo que as plataformas
digitais facilitam o acesso à informação, criam uma espécie de “loop de
tragédias” que nos prende em uma espiral de alerta emocional. O algoritmo,
programado para priorizar o que engaja, tende a destacar o que choca, e esse
filtro invisível intensifica o contato com imagens violentas, relatos
emocionantes e cenas de sofrimento extremo. A rolagem compulsiva de conteúdos
negativos, fenômeno conhecido como doomscrolling, se torna um hábito
inconsciente, com efeitos diretos sobre o humor, a percepção de mundo e a saúde
mental.
Desconectar-se, por outro lado,
nem sempre é fácil, pois há uma culpa difusa, alimentada por uma ideia
equivocada de que afastar-se das notícias seria uma forma de indiferença, mas
proteger-se emocionalmente não significa ignorar a dor do outro. Estabelecer
filtros, definir horários curtos para se informar, buscar conteúdos
equilibrados e cuidar da própria estabilidade psíquica são medidas tão válidas
quanto o engajamento com causas humanitárias. O autocuidado, nesse caso, não é
um gesto egoísta, mas uma forma de empatia ativa e sustentável.
As consequências dessa exposição
emocional prolongada já começam a aparecer nos dados, com o Brasil sendo um dos
países com maior prevalência de transtornos de ansiedade no mundo, segundo a
OMS. O uso excessivo de redes sociais, estimado em mais de 3 horas diárias por
pessoa, está associado ao aumento de sintomas depressivos, especialmente entre
os jovens. O Sistema Único de Saúde registra elevação na demanda por
atendimento psicológico desde a pandemia, e os centros especializados relatam
sobrecarga constante.
Esse adoecimento emocional
coletivo precisa ser reconhecido como parte do nosso tempo. O que antes era
considerado um efeito colateral da empatia, hoje se configura como risco direto
à saúde mental. Não basta apenas pedir “menos redes” ou “mais leveza”, é
preciso pensar estratégias públicas, educacionais e tecnológicas para lidar com
a nova realidade emocional moldada pelas telas. Os psicólogos têm papel
essencial nesse processo, não apenas no atendimento individual, mas também na
mediação social, na orientação pública e na criação de uma linguagem acessível
para falar de dor e autocuidado com responsabilidade.
A sensibilidade não pode ser
criminalizada. Sentir dor pela tragédia alheia é, antes de tudo, um traço de
humanidade, mas permitir-se respirar, pausar e cuidar da própria saúde
emocional é, hoje, uma necessidade coletiva. Desconectar-se de tempos em tempos,
redefinir limites e buscar suporte não são sinais de fraqueza, são expressões
de sabedoria emocional em um mundo que nos expõe ao sofrimento alheio como
nunca antes. É possível cuidar do outro e de si ao mesmo tempo, basta que se
reconheça que também temos o direito de se proteger para continuar sendo ponte,
e não esponja, diante da dor do mundo.
*Isabella Della Giacoma Bettes
atua como Psicóloga associada da BRAPSI
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